O mais patético foi ver o
Luís Fabiano dizendo, sobre a substituição dele. Que o
Dunga foi o melhor técnico com quem ele já treinou e que o
Dunga sabe o que é melhor pro time. E depois saber que o
Júlio César puxou uma
espécie de reza pra agradecer o
Dunga e coisas assim. Eu não acho que era hora do
Luís Fabiano sair atirando nem do
Júlio César tacar salada na cara do
Jorginho. Não é isso. É só que eu sempre tive um incômodo com essa seleção. E eu sei por onde passa esse incômodo. E eu vou chamar aqui de
dupla contaminação, esse incômodo. Primeiro, o discurdo religioso CONTAMINOU a preparação da seleção. No
Linha de Passe, o
Calazans (acho) usou o termo
monastério. A maioria usa
quartel e faz analogia militar. Mas eu acredito que a comparação religiosa fica melhor. Claro que monastérios e quartéis são
instituições totais. E o
Goffman nos ensinou como elas funcionam, daí qualquer uma serviria. Instituição total é aquela que engolfa todos os aspectos da vida do cara. Então as normas dela passam a ser as normas do mundo. A autoridade nela passa a ser a autoridade no mundo. E as coisas que fazem sentido lá, não fazem sentido em nenhum outro lugar. Num hospício, o psiquiatra é Deus. Num convento, a Madre Superiora é Deusa. E assim por diante. O
confinamento traz essa coisa da instituição total. E a
comissão técnica foi muito hábil quando explorou um aspecto já presente na vida privada de muitos jogadores e misturou com uma determinada postura que eles deviam ter na vida profissional e pública. É da
religiosidade que eu tô falando, claro. Então tudo se confundiu e servir à
Cristo passou a significar servir
ao
grupo, ao
Dunga e à
seleção. Eu imagino, e isso é puro chute, que a coisa devia funcionar meio como
grupo de AA. Pra quem já é religioso, potencializa. Quem não é acaba envolvido por aquilo de força superior, acredite em si mesmo, faça sua família ter orgulho de você. Pense nos seus filhos. Em grupo de AA não tem como escapar. Ou você acredita em
Deus. Ou em
si mesmo. Ou faz pelos
seus filhos. É quase impossível que um desses elementos não te toque. E veja. TODOS os jogadores citaram
os filhos e
a família quando deram entrevistas na zona mista. E o
Durkheim nos diz que
a religião é a instituição que inventamos para louvar
as regras sociais, a sociedade mesmo. E pra ficar mais fácil chamamos de Deus. E dizemos que
Deus quer isso e Deus quer aquilo. Mas na verdade é
a Sociedade que quer isso ou aquilo. O caso é que a gente
sacraliza as normas e daí não conseguimos nos opor. Você deve ter percebido, durante a sua vida, que as pessoas que não tem religião geralmente são as mais "desviantes" socialmente. Não louvar a Deus é não louvar as regras. Pois bem. Eu disse que foi hábil a trama do
Dunga por isso. Eu noto que os jogadores faziam referência
à seleção e
ao grupo como se eles tivessem fazendo esse papel que o
Durkheim descobriu. Do
sagrado. Então foi fácil porque foi só
deslocar a devoção. Vou te dizer. Quem é devoto adora qualquer coisa. Fica só esperando. E eu pensei que o
Luís Fabiano fazia meio que
a resistência nesse grupo, mas já vinha percebendo que ele tinha arranjado um escape pra devoção. Daí não importa qual porque ela se dá com a mesma intensidade e tal. Essa é a primeira contaminação. A segunda diz respeito a outro aspecto da religiosidade. Mas aí não tem mais a ver com a
estratégia de treinamento. Pra mim tá ligada
ao modo como o grupo passou a se ver. Talvez fosse até esperado isso, mas eu acho que surgiu na dinâmica. Como a maioria das seitas evangélicas, o grupo do
Dunga passou a se perceber como
especial. Dono de
uma verdade que os outros não conheciam mas que seria
revelada. E então nós tivemos o insólito. Porque a abordagem era
Seleção X Resto do País. Como se todos nós fossemos inimigos deles e estivéssemos dispostos a arruiná-los ou uma coisa assim. O
Dunga chegou a duvidar da
crueldade da escravidão porque nós acreditamos nela (crueldade). Ele pegou uma relação desgastada com a imprensa e levou pra todos os níveis. O comportamento do
Dunga na
fatídica coletiva é de horrorizar. Parecia que ele estava no meio de inimigos, tentando sobreviver e atento a botes e coisas assim. E o grupo todo passou a se sentir escolhido e incompreendido e todo um processo de vitimização nonsense. O
Júlio César chegou a falar que esse grupo nunca irá se separar. Impressão minha é que ele sofre mais
a separação do que
a perda da Copa. Já vimos isso em BBB, não é novidade. Eles se esqueceram de como é a vida fora da seleção. Essa noção de
grupo escolhido, pra que eu pasme de vez, foi encorpada por parte da
esquerdinha brasileira. Você deve notar que os esquerdinhas também se vêem assim. Como detentores da verdade que os ignóbeis não conseguem perceber. E se percebem em luta o tempo todo. Os inimigos estão prontos para atacar e eles ali, pronto pra resistir. No caso, o
Dunga luta contra a opinião pública e a esquerdinha luta contra as elites. E lutam o tempo todo. E a esquerdinha resolveu abraçar o
Dunga, pra lutar junto e tal. A gente não deve esquecer que o
discurso político mais parecido com
fanatismo religioso é o
esquerdinha. A gente não deve esquecer porque no caso é bem importante pro alinhamento. Porque, né? Não tinha nada a ver o conteúdo. Então eu presumo que a forma atraiu. Então esse é o problema central. A dupla contaminação. Treinamento virou monastério. Jogadores da seleção viraram "os escolhidos". Ou pode ser u
ma contaminação só e eu que tô desdobrando.
Mas tem um outro ponto. Só que aí é tanto chute e tanta psicologia de boteco que eu até resolvi fazer parágrafo. Eu já falei um pouco disso aqui, na época da convocação. Que o
Dunga não deixaria de ser quem ele é. E ele é um
volante aplicado. Então eu penso que ele sempre acreditou nisso. Que
aplicação e
disciplina constróem um campeão. É complicado nadar nessa água. Porque o budismo ensinou.
Se deixa frouxa, a corda não toca. Se estica demais, ela arrebenta. E eu fico pensando que ele tinha isso na cabeça. Que não existe
genialidade que não seja superada pela
árdua rotina de trabalho. E eu penso nele deitado no quarto, em 1994, na concentração. E acordando bem cedo pra treinar. E lendo minutos de sabedoria pra se inspirar. E vendo o
Romário pular janela e voltar de madrugada e ficar procurando sombra na hora do treinamento. Eu já assisti um jogo do
Romário, pelo
Vasco, que ele jogou na sombra o tempo inteiro. Quando lançavam bola onde o sol tava batendo, ele nem ia. E ele era o capitão e o Brasil confiava nele e ele ergueu a taça. Mas
a Copa é do Romário. O
Romário é que entrou pra história. É do
Romário que a gente lembra. É o nome do
Romário que a gente grita. Eu acho que ele nunca conseguiu entender. E é difícil pra mim também navegar nessa água. Porque pode parecer que eu tô fazendo uma espécie de elogio ao
Macunaíma. E que acredito em talento nato. E coisas assim. E não é isso. Eu entendi quando o moço falou que
99% é transpiração. E eu nunca vou saber se a disciplina é que mata o talento. Ou se a disciplina é o refúgio de quem não tem talento. É metafísica essa discussão. Eu sei que o
Dunga acreditou mesmo. Que a
mediocridade, desde que bem treinada, seria capaz. Então ele pegou
jogadores medianos ou
em má fase e disse pra eles "
você pode". E eles acreditaram, pelos motivos já ditos aí em cima. Mas o caso é que me parece um
acerto de contas pessoal. A
feia seleção de 94, no fim das contas, só ganhou porque
havia um gênio por lá. Você pode imaginar. O quanto o
Dunga ama ver gol do
Elano. Eu nem comemoro gol do
Elano. As pessoas amam o
Lúcio. O LÚCIO. Olha. Não dá. Eu nem reparo no
Lúcio. Só vejo o
Lúcio quando ele faz cagada. Talvez seja o jogador mais sem sal da história desse país. Não tem charme, não tem carisma. E acho que era essa a meta mesmo. Transformar todo mundo em
Lúcio. O
Juca disse no
Linha de Passe que quando olha individualmente os jogadores, não sente carinho por nenhum. Não sente nada. O que de mais afetivo aconteceu com a gente foi
Felipe Melo mesmo. E aí eu até tiro meu chapéu pra ele. Numa seleção sem personalidade, em que todos os indíviduos foram abrindo mão das suas características para formarem uma
massa amorfa que eles chamam de "grupo", O
Felipe Melo foi o único que escapou. Daí que os craques abriram mão mesmo de ser craque. Um atacante substituído no fim do jogo diz que foi melhor assim. Aprenda com o
Tevéz,
Luís Fabiano. Da próxima vez, saia bufando. Aprenda com o
Ganso e se recuse a sair. E o
Robinho é outro sintoma do
elogio da mediocridade, se a gente for pensar. Tava na reserva do
Manchester City e foi pro
Santos. E o
Santos detonou. Ele também detonou. Mas, né? Outros caras encheram nossos olhos. Dois
gênios ascendendo. E o
Dunga nem notou. Ou deliberadamente desviou o olhar e optou pelo
gênio caído.
Agora sim o Robinho está pronto, eu acho que ele pensa. Caiu do Olimpo. Virou mortal. Esse apego dele à mortalidade. Ele convenceu o grupo todo disso. Que eles eram mortais e que nada conseguiriam sem o "grupo". E o grupo aqui funcionando como o
Deus durkheiminiano. Daí volto pro que eu já falei. Então é só isso, por enquanto, que eu tenho a dizer sobre a eliminação.
Eu gosto dessa imagem porque pra mim ela reflete. O abrir mão do talento para abraçar a garra. Como se fosse uma boa troca. A maneira que o Robinho achou de "entrar" com tudo no jogo. Quem ainda não viu. Vale a pena clicar e ampliar etc.